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Fluxo de Ordens

Book vazio: como analisar (e quando ele não diz nada)

Por que a mesma tela significa coisas opostas dependendo do ativo

Book vazio no dólar significa uma coisa; em opção at the money, nenhuma. Entenda as portas de entrada de fluxo, os dois motivos reais do vazio e como isso vira ajuste de risco.

André Hanna Farath André Hanna Farath · 8 min de leitura
Book de ofertas de um ativo brasileiro mostrando a fila de ordens por corretora em cada nível de preço
A fila por nível de preço: quantos lotes, de quantas ordens e de quais participantes. É aqui que a leitura começa — ou não. Foto: Romulo Queiroz · Pexels

A pergunta veio de outra rede social e mereceu virar conteúdo aqui, porque a resposta ajuda em uma série de operacionais e de ativos: como analisar um book que está vazio?

A resposta honesta começa com uma pergunta de volta. Vazio em qual ativo? Porque a mesma tela — poucos lotes em cada nível de preço — significa coisas completamente diferentes dependendo de onde você está olhando. E em boa parte dos casos, não significa nada.

O book é metade da informação

Antes de qualquer coisa, vale um alerta sobre a moda das ferramentas de visualização de liquidez. Elas são intuitivas, bonitas, mostram zonas de liquidez com clareza — e justamente por isso viciam o olhar.

Fluxo é a união de duas forças:

  • A agressão, que consome liquidez e faz o preço andar.
  • Os lotes passivos pendurados na tela, que seguram a liquidez e impedem o mercado de andar.

É o desequilíbrio das duas em conjunto que gera leitura — e é isso que trader autônomo, robô, HFT e RLP estão observando. Quando você olha só um lado, desenvolve uma tendência natural, muitas vezes inconsciente, de ficar reativo contra o movimento: você passa a desconsiderar o que está empurrando o mercado.

Às vezes a indicação está na agressão. Às vezes está no book. Às vezes está no conjunto. E às vezes não existe indicação operacional nenhuma. Nem tudo que você precisa está no book, esteja ele cheio ou vazio.

Antes do book, a porta de entrada do fluxo

Aqui está o conceito que resolve a maior parte das dúvidas sobre book vazio: nem todo ativo recebe fluxo diretamente. Em mercados que não são profundos, o fluxo entra por uma porta e arrasta os ativos correlacionados por arbitragem.

Opção at the money

Pegue uma opção no dinheiro de uma ação líquida. O book dela é estruturalmente vazio há uns quinze anos. Abra a fila e olhe a composição: pouco lote em cada nível de preço, todos os níveis muito parecidos entre si, na compra e na venda. Isso é assinatura de market maker e HFT — e market making, vale lembrar, é uma das modalidades dentro da categoria HFT.

O que essa simetria te diz? Muito pouco. E o motivo não é que fluxo não funciona: é que o fluxo real daquela estrutura está entrando pela ação. Ele entra no ativo objeto, arrasta toda a estrutura de opções e chega naquela série muitas vezes sem sair um único negócio — só com o market maker ajustando o spread dois ou três centavos.

Você vê o preço oscilar sete, oito centavos com três negócios saindo. Se você estiver olhando só o book — ou só o times and trades daquela série — a informação não está ali. Você está na porta errada.

Índice padrão

Mesma lógica, com uma nuance. O padrão e o mini são o mesmo ativo em termos de comportamento, com lote diferente, e são totalmente arbitrados entre si. O fluxo real entra no mini; o padrão é arrastado. Os poucos negócios que saem no padrão saíram por arbitragem, com lote muito menor que o fluxo verdadeiro.

Olhar só o book do padrão, sem considerar as agressões, é olhar praticamente nada em termos de fluxo: uma fila de HFT e market maker, simétrica na compra e na venda.

Mini índice e a estrutura do dólar

Aqui a história muda. É onde a maior parte do fluxo entra de fato. No dólar, ora entra pelo padrão, ora pelo mini — mas entra. Esse book é fiel à realidade. É só nesses ativos que faz sentido dizer “o book está vazio” como uma afirmação com conteúdo.

O filtro de uma linha

Antes de interpretar um book vazio, pergunte: o fluxo real deste ativo entra por aqui, ou ele chega arrastado por arbitragem? Se chega arrastado, o vazio é estrutura — não é sinal.

Os dois motivos reais para o book esvaziar

Nos ativos em que o book reflete a realidade, enxergo dois motivos.

O primeiro é aumento de volatilidade. O gatilho pode ser qualquer coisa — inclusive os segundos que antecedem a divulgação de um indicador econômico agendado, quando o mercado sabe que pode vir um número muito diferente do esperado. E o mecanismo é sempre o mesmo: quem enxuga a liquidez é o market maker recolhendo as ordens dele, aquelas que ficam simetricamente na compra e na venda.

O segundo é desinteresse da contraparte. Aqui não estamos falando de market maker, mas de um participante real: alguém que já comprou e está pendurando venda para sair, ou que está pendurando venda para entrar posicionado. Um cliente normal, mas com ordem grande — ordem pequena some no mercado e não importa.

O interesse desse participante não é linear ao longo dos níveis de preço. Existe um interesse médio em cada faixa, e existem momentos em que ele simplesmente é menor. Vazios de interesse institucional, na compra ou na venda, momentâneos. E isso é operável.

Em ambos os casos, a mensuração é a mesma: você compara o que está na tela com a média daquele ativo. No olho, na maior parte das vezes. De forma quantitativa, quando dá.

Como se opera isso — e o que já morreu

O operacional clássico de book vazio é o trade de fila. Quando havia buracos no book, longe do preço, você enchia aqueles níveis de ordem pressupondo que a fila ia encher atrás de você. Aí, quando o mercado chegasse ali, você estava entre os primeiros: vendia no nível com um caminhão de lote atrás para ser consumido e zerava um ou dois ticks abaixo, ajustando conforme a profundidade do outro lado.

Esqueça isso no dólar hoje. No índice nunca funcionou bem. Talvez ainda funcione em opções muito baratas, abaixo de vinte centavos, e em alguns contratos de DI futuro — mas com uma ressalva séria: você fica exposto com muito lote em vários níveis de preço. Uma breaking news varre a liquidez, o mercado vai para o limite e você quebra. Em opção de centavos o papel precisa andar muito para isso acontecer; no DI, um evento de cauda te limpa. Eu não faço.

Existem outros operacionais que funcionam:

  • Agressão de fim de fila. Um nível de preço gordo sendo consumido, com a profundidade seguinte rasa. Quem está comprando não tem lote na venda para tomar, quem vendeu parte daquilo como giro vai ter que recomprar mais caro, e o oportunista de fora intensifica o movimento.
  • Inversão de fluxo em ativos com bastante lote por nível. No DI e no dólar, quando o fluxo inverte e a fila do lado da sua saída também está rasa, isso é sinalização.

Mas em qualquer um dos dois vale a mesma regra, e ela é a parte mais importante deste texto: não adianta só olhar o book. Não adianta bater uma foto de um nível carregado com profundidade rasa atrás e concluir “se tomarem tudo aquilo, o mercado vai”. Você precisa contar uma história na sua cabeça sobre por que aquilo está acontecendo.

O que sobrou no meu operacional

Hoje, no índice, eu uso book vazio de duas formas — e as duas são defensivas.

A primeira nem é para ganhar dinheiro. Muita coisa na leitura de mercado não serve para ganhar, serve para não perder. É o mesmo caso do HFT: não consigo ganhar dinheiro com ele, mas consigo olhar para não ficar na frente do trem.

Aqui o sinal é o market maker. Ele não some de uma vez: ele diminui o tamanho do lote de um dia para o outro. Como são vários players fazendo market making e o padrão é visível, dá para montar um book pequeno só com essas ordens e comparar. Se ontem ele colocava X lotes por nível e hoje colocou muito menos — ou passou a escalonar, pulando níveis de preço — isso é um baita sinal.

Sinal de quê? Da percepção de volatilidade dele. Esse cara é muito mais informado em termos quantitativos do que eu. Se ele está colocando bastante lote em cada nível, está tranquilo com a vol, porque ele não quer ficar exposto: se tomar uma rajada de agressão contra, fica muito comprado ou muito vendido. Se hoje ele recolheu, ele está vendo alguma coisa — às vezes o noticiário, às vezes um indicador, muitas vezes nada que eu consiga nomear.

Isso não abre trade. Isso ajusta stop, alvo e tamanho de lote.

A segunda é um ajuste direto no operacional. Tem um trade de dupla escora que eu faço no índice, montado em cima do lote do cash and carry. Nos dias em que há mais lote por nível de preço, é o operacional de sempre. Quando esse lote cai abaixo da média, eu não estou mais tão protegido — e aí ou exijo que o mercado ande mais para encontrar escora de verdade, ou reduzo o lote, ou simplesmente não faço.

O raciocínio é literal: se a escora média era de quinhentos lotes e hoje só tem cem, cem lotes é escora? Para mim, não. Mudou o sinal, muda o trade.

Quando a volatilidade aumenta muito, eu prefiro ficar de fora a exigir do mercado uma condição que ele não está oferecendo.

E há o caso em que o market maker arranca as ordens de uma vez. Se você não está enxergando o motivo — e normalmente não está — e não está junto com a ponta da agressão, esse é o momento em que o mercado está literalmente dizendo: não vai contra. Se você não pegou a ida, contra você não fica.

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Perguntas frequentes

O que significa um book vazio?

Depende do ativo. Em opções at the money e no índice padrão, o book é estruturalmente vazio: a fila é formada quase só por market maker e HFT arbitrando, e isso não gera sinal operacional. No mini índice e na estrutura do dólar, onde o fluxo real entra de verdade, o vazio costuma significar aumento de volatilidade ou desinteresse da contraparte.

Por que o book de uma opção at the money vive vazio?

Porque o fluxo real não entra por ali. Ele entra pelo ativo objeto — a ação — e arrasta toda a estrutura de opções por arbitragem, muitas vezes sem sair negócio, apenas com o market maker ajustando o spread. Você está olhando a porta errada.

O trade de fila ainda funciona?

No dólar e no índice, não. Era um operacional que dependia de buracos no book e de a fila encher atrás da sua ordem — isso acabou. Talvez ainda funcione em opções muito baratas e em alguns contratos de DI futuro, mas com risco alto: uma notícia varre vários níveis de preço enquanto você está exposto em várias ordens.

Como usar o book vazio sem operar em cima dele?

Como termômetro. O tamanho médio do lote que o market maker coloca em cada nível de preço, comparado com os dias anteriores, indica a percepção de volatilidade dele — que é mais informada que a sua. Lote menor pela manhã é sinal para ajustar stop, alvo e tamanho de posição, não para abrir um trade.

André Hanna Farath
Escrito por

André Hanna Farath

Economista, MBA em finanças e mais de 20 anos de mercado — corretora, gestora e mesa própria. Escreve sobre o que acontece por trás dos movimentos que aparecem na tela.

Sobre o autor